SXSW 2021: pertencimento e segurança em tempos de Covid-19
Como fica a sensação de pertencer a algo em um mundo que passou por tantos meses de isolamento social?
Uma das delícias de assistir ao SXSW é ir “costurando” as palestras que a gente assiste. A gente pega um retalho ali, junta com outro aqui…e quando vai ver, tem um patchwork super interessante – que muitas vezes traz novos olhares para aqueles conteúdos.
Duas sessões me fizeram pensar bastante sobre o que está acontecendo conosco quando o assunto é senso de pertencimento: isolada hoje exatamente há 365 dias, tenho sido privada de abraços de amigos, de encontros não-marcados com pessoas queridas no trabalho pra um café e até de estar no mesmo espaço físico de pessoas de quem a gente gosta.
E você que está lendo esse texto está na mesma situação, não é?Quarentenado, em casa e apenas com as telas como interfaces com o mundo.
Pois bem. Vanessa Mason, do Institute for the Future of Belonging, começou um painel sobre o futuro do pertencimento falando exatamente sobre esta crise, que combina a nossa sensação de solidão ao “displacement” – o sentimento de ter perdido o(s) nosso(s) lugares de conexão – e uma onda de desfiliação de pessoas a instituições como igrejas, clubes, etc.
Ela falou que o senso de pertencimento vem de três grandes vetores: a conexão emocional gerada pelo afeto que vem da validação e vivência com outras pessoas; a percepção de significados comuns em coisas, pessoas e situações; e a segurança, física ou psicológica.
É aqui que eu costuro o painel da Vanessa com o do John Maeda, especialista em CX que falou sobre como neste momento durante e pós pandemia a “segurança vai engolir o mundo”. John, que anualmente apresenta seu CX Report com tendências pro ano, falou muito em 2021 sobre como a pandemia impactou nosso set de necessidades humanas. Isso ocasionou uma evolução – ou mudança mesmo – na pirâmide de Maslow, que trouxe pra sua base mais densidade num bloco de 4 camadas que ele chamou de “safety stack”. Este bloco é composto por segurança física (dispensa explicações, né), segurança operacional (ser capaz de funcionar, trabalhar, fazer o que vc precisa), cyber segurança (estar seguro e protegido de malware, o que é cada vez mais importante no mundo previsto ontem pela Amy Webb) e segurança psicológica (gostar e ser gostado, cuidar e ser cuidado, incluir e sen sentir parte).
Este safety stack, aplicado a pessoas e a organizações, tem o poder de torná-las “anti-frágeis” (já leu o livro do Nassim Taleb?), ou capazes de se tornar mais fortes a cada crise ou momento de stress. E se nós podemos ser anti-frágeis como pessoas, organizações e comunidades, nós podemos criar novos caminhos para encontrar pertencimento.
Quer ver um que tem sido sucesso de audiência? O Clubhouse.
Vanessa trouxe ainda outros 2 exemplos, menos conhecidos por mim mas que achei bem interessantes. O Teemyco, um escritório virtual que tem as já conhecidas “salas de reunião” mas também tem espaços pra estimular a espontaneidade nas conversas e trocas dos colaboradores; e o Project Truth, um movimento que pretende diminuir a desigualdade nos Estados Unidos unindo diversas comunidades (indígena, LGBTQIA+, minorias de raça) em uma grande comunidade que trabalha junta em prol de maior igualdade.
Quem assistiu “Batman Begins” deve lembrar da cena em que o herói cai num poço fundo e o pai o resgata. Neste momento, Thomas Wayne pergunta ao filho “por que nós caímos, Bruce?”.
O menino responde: “Pra gente aprender a levantar”.
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